Tópico, 27 de Jun de 2016

Aparelhos fixos e dentes decíduos, certo ou errado?

Existe um ditado americano que diz: “ Há várias formas de se pelar um gato”. Sempre fico pensando nele, apesar de nunca ter me passado pela cabeça arrancar os pelos do bichano. Coitado do bichinho, eu hem? - Coisas de americanos.

Costumo dizer que existem várias maneiras de fazer a mesma coisa (tirar o pelo do gato?) não se trata simplesmente de afirmar se isto é certo ou errado, mas sim de falar em boas ou más escolhas e possibilidades. Na ortodontia isto é notado quando falamos em tratamentos bem planejados, na hora certa e com metas e terapias individualizadas.

É igual a uma viagem, porque não viajar pegando bons atalhos? Escolher a melhor hora, a melhor época do ano, ou o melhor transporte? Planejar a viagem, para que esta seja segura, confortável e agradável.

Fazendo uma analogia, já que sendo especialista em Ortodontia e Ortopedia Facial, sou questionado diversas vezes, sobre qual a melhor hora para o filho usar o aparelho fixo (como tirar o pelo do gato) e ficar com o sorriso perfeito. Ultimamente tenho sido até mesmo “pressionado”, para que as crianças usem logo de cara certo aparelho (em geral o fixo), acho que por causa do bullyng odontológico, um certo modismo e também de uma internet repleta de informações divergentes e confusas.

Eu sou defensor do tratamento ortodôntico em duas fases. Utilizando em geral aparelhos removíveis para as crianças e o aparelho fixo total na dentição permanente, e outras vezes só mesmo o fixo para os adolescentes, dependendo muito da magnitude do problema. Mas em casos de bullying ou mesmo controle de sobremordida ou problemas mais específicos uso o 4x2.

A abordagem ortodôntica em duas fases é utilizada quando os pacientes bem jovens (tipicamente dos 6 aos 10 anos de idade) apresentam problemas nos dentes ou ossos tão severos que esperar até a adolescência: poderia tornar o tratamento mais difícil, demorar mais, quebrar dentes e até deixar os baixinhos em desvantagem estética e social entre os amiguinhos dos primeiros anos da pré-escola ou do ensino fundamental, gerando bullyng. Sim - bullyng odontológico!

Mas, deve-se iniciar o tratamento com aparelhos fixos naqueles pacientes adolescentes que ainda apresentam um ou mais dentes de leite? Todos os dentes de leite devem ter sido perdidos para o início da segunda fase do tratamento, aquela que usa o aparelho ortodôntico fixo? Pergunta frequente, mas nem sempre tão simples de responder, vejamos...

O primeiro cuidado que tenho na avaliação ortodôntica do adolescente é a presença ou não de dentes de leite em sua boca. Se este rapazinho ou mocinha, já tem seus 12 anos ou mais e ainda apresenta dentes de leite, isto pode ser um sinal que todo seu desenvolvimento dentário e até esquelético pode estar atrasado. Ou seja - a idade não é o mais importante para estabelecermos o tratamento adequado, mas sim o desenvolvimento daquele jovem adolescente. Hoje temos moças de 9 anos bem desenvolvidas e rapazes que só irão “esticar” após os 16 anos, a variação do desenvolvimento é bem ampla e independe até certo ponto da idade.

Um outro indicador que uso para avaliar o desenvolvimento, pode ser a situação do segundo molar permanente. Se estes ainda não apareceram na boca, pode ser um bom indicador que o desenvolvimento deste jovem está “atrasado” em relação a média. Outro sinal é se os dentes de leite estão sendo perdidos na sequência correta ou apenas atrasados.

Exemplificando, se os quatro segundos molares decíduos ainda persistem em uma mocinha de 13 anos, esta mocinha parece estar mais “lentinha” para seu crescimento e desenvolvimento. Por outro lado, se apenas um molar de leite persiste e os outros três foram perdidos e já nasceram os outros permanentes, existe uma chance boa, de que algo de errado pode estar acontecendo com este último dente. Simetria e padrões de perdas dos dentes de leite, são aspectos críticos para um bom diagnóstico.

Se o desenvolvimento geral de um paciente está atrasado, a decisão de remover o dente de leite é feita com base em diversos fatores. O primeiro é a idade do paciente. Se já tem por volta de 14 ou 15 anos (aqui a idade pode ser um bom parâmetro) em geral peço para que sejam removidos os dentes de leite remanescentes, para que o tratamento seja finalizado antes deste jovem ir para a faculdade. Tudo isto após análise radiográfica e outras considerações clínicas.

O segundo fator então passa a ser a formação das raízes do dente permanente, que ainda não apareceu na boca (verificada por meio de radiografias) e sua associação com o dente de leite, que ainda está presente e muitas vezes indico a extração deste. Finalmente, se os segundos molares permanentes estiverem totalmente irrompidos e ainda persistem dentes de leite, em geral recomendo a extração dos decíduos para que o tratamento com os aparelhos fixos possa ser iniciado.

Apesar de eu preferir inciar os tratamentos com aparelhos fixos após a perda de todos os dentes de leite, algumas vezes pode ser mais apropriado começar antes este tratamento. Um destes casos é a presença de um dente “aquilosado” (chamamos de impactado) devido ao pouco espaço para seu correto posicionamento, neste caso prefiro começar o tratamento de forma mais precoce.

Se um dente de leite não for perdido porque o dente permanente não tem espaço suficiente para irromper, geralmente inicio o tratamento, mesmo com o dente de leite presente e após conseguir espaço para os dentes permanentes, o decíduo começa reabsorver sozinho. Se isto não acontecer, peço sua extração.

Uma outra razão que considero para iniciar o tratamento com os aparelhos fixos, mesmo com a presença de dentes de leite, é quando o sorriso da criança acarreta um prejuízo social e a mesma torna-se vítima de bulling odontológico, ou seja é atacada moralmente, de forma agressiva e ou intencional, gerando piadinhas, fofocas e apelidos, que prefiro nem citar aqui. Em alguns casos, isto pode influenciar negativamente a criança em seu desenvolvimento social e acadêmico, diminuindo sua autoestima e em última instância até o suicídio.

Fonte: www.ortodontia-df.com

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Autor

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Dr. Rogério Bernardes

Ortodontia e Ortopedia Facial

 Taguatinga, DF

Desde os tempos de graduação na Unb tenho sido um ávido participante de cursos e congressos de odontologia, em 1993 tive a oportunidade de conhecer a USP de Bauru, acompanhando... Leia mais

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